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Invasão da Ucrânia: o que Putin quer com a ofensiva russa?

 

Aeronave militar ucraniana derrubada nas proximidades da capital Kiev em durante o primeiro dia de ofensiva russa

As razões por completo não são tão claras e dependem de quem responde à pergunta [ninguém é isento, idiologicamente], mas a BBC News Brasil reúne aqui cinco pontos por trás da invasão que vêm sendo levantados por vozes na Rússia, na Ucrânia e também por especialistas em defesa e política internacional.

NOTA: A principal ‘razão’ alegada por Putin foi a tentatica (desejo) da Ucrânia de entrar para OTAN (se bem que isto seria impossível devido aos conflitos internos, separatistas). No entanto, o presidente russo divulgou um vídio “justificando” o ataque e ali disse que o governo ucraniano é “uma gang de viciados e neo-nazistas”… E incita o exercito ucraniano a tomar o poder (golpe).

1. Avanço da Otan no Leste Europeu

O principal ponto levantado por autoridades e especialistas em torno da invasão da Ucrânia é o avanço pelo leste-europeu da Otan, aliança militar formada em 1949 por, inicialmente, 12 países (Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos). A Otan tem hoje 30 membros e sua expansão recente ocorreu justamente no leste-europeu. Ela se define essencialmente como uma aliança de defesa, algo visto com ceticismo por muitos na Rússia.

Pelo artigo 5 da Otan, os membros concordam em ajudar uns aos outros no caso de um ataque armado contra qualquer Estado-membro. A rivalidade entre os dois lados tem raízes claras no pós-guerra quando o objetivo declarado da Otan era combater a ameaça da expansão soviética em um cenário de Guerra Fria.

A Alemanha entrou para a Otan em 1955, fato que foi seguido pela assinatura de uma espécie de resposta do bloco comunista à Otan: o Pacto de Varsóvia, reunindo países do leste-europeu em uma aliança militar.

Nesse contexto, os soviéticos que lutaram ao lados dos britânicos, franceses, americanos e seus aliados contra a Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial, passaram em seguida a ser a principal fonte de preocupação. Seguindo essa perspectiva histórica em que aliados se tornam inimigos, muitos na Rússia veem com desconfiança as intenções da Otan.

O fato é que, após o colapso da União Soviética, em 1991, 14 países do antigo Pacto de Varsóvia se tornaram membros da Otan.

A Ucrânia não é um membro da Otan, e embora pleiteie entrada no grupo, não há qualquer previsão de que isso ocorra num futuro próximo. Atualmente, é um “país parceiro” — isso significa que há um entendimento de que pode ser autorizado a ingressar na aliança em algum momento no futuro.

Putin afirma que as potências ocidentais estão usando a aliança para cercar a Rússia e quer que a Otan cesse suas atividades militares na Europa Oriental.

Ele argumenta há muito tempo que os EUA não cumpriram com uma garantia que teria sido feita em 1990 de que a Otan não se expandiria para o leste. Esse é um ponto central no discurso de Putin sobre uma espécie de traição da Otan que teria também se aproveitado de uma situação de fraqueza e vulnerabilidade da Rússia logo após o colapso da União Soviética para cooptar países que faziam parte do bloco comunista.

Em uma entrevista em 2014, Mikhail Gorbachev rebateu a argumentação de Putin. Gorbachev, que era o líder da União Soviética na época do colapso, disse que, de fato, a expansão da Otan pelos países do leste-europeu traía o espírito do que foi acordado naquele momento, mas que nunca houve uma promessa específica sobre a expansão da Otan.

 A movimentação de tropas russas na fronteira agora em 2021 e 2022, nos meses que antecederam a invasão, foi vista como uma tentativa de forçar a Otan a negar a entrada da Ucrânia na aliança militar.

“Para nós, é absolutamente obrigatório garantir que a Ucrânia nunca, jamais se torne um membro da Otan”, disse o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Ryabkov.

Mas a Otan negou peremptoriamente um veto a sua política de portas abertas a qualquer membro que queira aderir à organização. “A relação da Otan com a Ucrânia será decidida pelos 30 aliados da Otan e a Ucrânia, e por ninguém mais”, disse o secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, em dezembro de 2021. Depois, no fim de janeiro de 2022, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, negou formalmente à Rússia que a demanda para barrar a Ucrânia seria atendida.

“Para os EUA e seus aliados, é a chamada política de detenção da Rússia, e de óbvios dividendos políticos. E para nosso país, é uma questão de vida ou morte, é uma questão do nosso futuro histórico como povo. E não é um exagero. É assim mesmo. É uma ameaça real não só aos nossos interesses, mas à própria existência do nosso Estado e à soberania dele. É justamente a linha vermelha tantas vezes citada por mim. Eles a ultrapassaram”, disse Putin, em seu discurso televisionado nesta quinta-feira.

Segundo a Sputnik, agência estatal de notícias da Rússia, “para Moscou, a consideração de uma adesão da Ucrânia à aliança ocidental ultrapassa todos os limites aceitáveis, ameaçando gravemente a segurança russa”. E completa: “Apesar dos diversos apelos diplomáticos feitos pelo Kremlin na tentativa de que os Estados Unidos e seus aliados europeus levassem em conta as preocupações russas ligadas a esse avanço da organização militar liderada por Washington, não foram registrados progressos nas negociações”.

Outras demandas russas são: limitações às tropas e armas que podem ser implantadas nos países que aderiram a essa aliança após a queda da União Soviética (URSS) e a retirada da infraestrutura militar instalada nos Estados do Leste Europeu após 1997.

“Eles realmente querem retornar às fronteiras existentes na Europa Oriental durante a Guerra Fria”, disse à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) George Friedman, fundador da empresa internacional de previsão e análise Geopolitical Futures, resumindo as demandas de Moscou.

2. Queda de presidentes pró-Rússia e…

3. conflito Ucrânia x separatistas

Outra questão importante na raiz da atual crise foram os eventos de 2014. Um dos objetivos de Putin nesse contexto seria retomar, na melhor das hipóteses, a influência e, na pior, o controle sobre a Ucrânia.

“Estamos vendo que as forças, que em 2014 realizaram o golpe de Estado na Ucrânia, tomaram o poder e o seguram com, de fato, procedimentos de eleições decorativas, finalmente se recusaram da solução pacífica do conflito. Oito anos, oito anos infinitamente longos em que temos feito todo o possível para que a situação fosse resolvida por meios pacíficos e políticos. Tudo em vão”, disse Putin ao anunciar a invasão da Ucrânia.

Segundo ele, a ofensiva militar contra o país vizinho visa “defender as pessoas que durante oito anos têm sido submetidas a intimidação e genocídio pelo regime de Kiev. E para isso, vamos tentar alcançar a desmilitarização e desnazificação da Ucrânia. E levar à Justiça aqueles que realizaram múltiplos crimes sangrentos contra civis, incluindo cidadãos da Federação Russa”.

As acusações de genocídio e nazismo não são baseadas em qualquer evidência e o pano de fundo das acusações se refere às mudanças políticas na Ucrânia em 2014. Foi quando o então presidente Viktor Yanukovych, bastante próximo da Rússia, caiu do cargo em meio a enormes protestos no país.

O movimento teve origem justamente na recusa do então mandatário em assinar um tratado com a União Europeia, ou seja, um ato simbólico de lealdade à Rússia que levou milhares de jovens ucranianos às ruas contra o presidente.

Parte majoritária dos ucranianos defendia a integração com o bloco europeu; mas outra parte, porém, fala russo e prefere estar sob a esfera de influência de Moscou. Muitos deles estavam na Crimeia e na região de Donbas.

A crise levou à invasão da região da Crimeia em 2014 pela Rússia, que anexou o território, alegando laços históricos. Críticos, no entanto, destacaram o forte interesse russo em consolidar seu acesso em uma posição estratégia no Mar Negro garantida pelo Porto de Sebastopol localizado na Crimeia. O porto de águas profundas é considerado crucial para a frota naval russa, incluindo o acesso ao Mar Mediterrâneo.

Além da anexação da Crimeia, rebeldes apoiados por Moscou declararam a independência das províncias de Donetsk e Luhansk, no leste da Ucrânia, conhecidas conjuntamente como a região de Donbas, o que não foi reconhecido pela comunidade internacional desde então. Mas a Rússia, pouco antes da invasão em 2022, reconheceu ambas como independentes. A Rússia já apoiava separatistas na região que vive um conflito que já morreram 14 mil pessoas desde 2014.

“Os principais países da Otan, para alcançar seus objetivos, apoiam em tudo na Ucrânia os nacionalistas radicais e neonazistas, que, por sua vez, nunca vão perdoar os moradores da Crimeia e de Sebastopol por terem decidido ser livres para se reunificar com a Rússia. Eles com certeza vão para a Crimeia, e assim como em Donbas, com guerra, para matar, como mataram pessoas indefesas os justiceiros de gangues de nacionalistas ucranianos, cúmplices de Hitler durante a Grande Guerra pela Pátria”, disse Putin nesta quinta.

A região que abriga os dois focos separatistas interessa à Rússia, segundo analistas, não apenas pela relação étnica destacada por Putin, mas também por terem importantes reservas de minérios, principalmente o aço.

No segundo dia de guerra, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse à nação que a Rússia o considera seu inimigo número 1, alimentando ainda mais as especulações de que um dos objetivos da ofensiva russa é derrubar o governo para alçar ao poder algum nome pró-Rússia, como ocorria até 2014. É comum entre ucranianos também a análise de que a Rússia de Putin quer acabar com democracia bem-sucedida em um vizinho que sirva de inspiração às escolhas futuras de eleitores russos. Muitos dizem acreditar também que Putin não interromperá na própria Ucrânia seus objetivos expansionistas e que outros países que faziam parte do bloco comunista, principalmente na região dos Bálcãs, estão sob ameaça.

4. Laços históricos entre Rússia e Ucrânia

Em 12 de julho de 2021, em um longo artigo sobre as relações com a Ucrânia, o presidente russo, Vladimir Putin, denunciou que a nação vizinha estava caindo em um jogo perigoso destinado a transformá-la em uma barreira entre a Europa e a Rússia, em um trampolim contra Moscou.

Putin não se referia apenas à dimensão de segurança e geopolítica, mas sobretudo aos laços históricos, culturais e religiosos entre a Rússia e a Ucrânia, e sobre os quais escreveu extensivamente.

O presidente russo relembrou, entre outras coisas, o antigo povo rus, considerado o ancestral comum de russos, bielorrussos e ucranianos, e destacou os muitos marcos da história comum para defender sua visão de que russos e ucranianos são “um só povo”.

Gerard Toal, professor de relações internacionais da Universidade Virginia Tech (EUA), destaca que vários elementos que misturam história, cultura e identidade estão envolvidos nessa ideia.

“A Rússia não vê a Ucrânia como apenas mais um país. A visão dominante do nacionalismo russo é que a Ucrânia é uma nação eslava irmã e, além disso, o coração da nação russa. Essa é uma ideologia muito poderosa, que faz da Ucrânia um elemento central da identidade russa”, diz ele.

Desde a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, a Otan colocou grupos de combate no leste europeu

“Portanto, há sentimentos muito fortes quando a Ucrânia como nação se define em oposição à Rússia. Isso causa muita raiva e frustração na Rússia, que se sente traída por um irmão. E isso tem a ver com a incapacidade da visão dominante entre os russos de reconhecer a identidade nacional ucraniana como algo separado da Rússia”, acrescenta.

George Friedman, da Geopolitical Futures, ressalta a importância que a Ucrânia poderia ter para a Rússia do ponto de vista cultural ou histórico, mas defende que a real preocupação de Moscou é geopolítica.

“Sim, os dois países compartilham uma história comum. Historicamente, a Ucrânia foi dominada e oprimida pelos russos. Durante o período soviético, eles sofreram uma grande fome, em que milhões de pessoas morreram, porque a Rússia queria exportar os grãos que produziam. A grande unidade entre o povo russo e ucraniano é um absurdo”, argumenta. Ele se refere a Holodomor, a grande fome que matou um total de ucranianos estimado em mais 3 milhões durante o comunismo soviético.

5. Legado de Putin

Há mais de duas décadas no poder, Putin se mostra mobilizado por revisionismos históricos que remontam não só ao fim da União Soviética, mas à queda do Império Russo e até mesmo à sua formação (séculos atrás), ressentimentos em relação aos Estados Unidos e potências europeias e preocupações com como seu período à frente do governo russo entrará para a história.

“A Rússia, como toda grande potência, pensa em termos dos próximos 100 anos e entende que, nesse período, tudo pode acontecer. Um século atrás, quem adivinharia que forças militares dos Estados Unidos estariam estacionadas na Polônia e nos países bálticos a poucas centenas de milhas de Moscou?”, já questionava o jornalista Tim Marshall em seu livro de 2016, Prisioneiros da Geografia (em tradução livre).

Agora, com a invasão da Ucrânia em curso, Brian Taylor, professor de Ciência Política da Syracuse University e autor de The Code of Putinism (O Código do Putinismo, em tradução livre), cita à BBC News Brasil algo mais concreto sobre o presente e a perspectiva de futuro nas atitudes de Putin: “Às vésperas de completar 70 anos, Putin está certamente preocupado com seu legado, e um dos ‘assuntos inacabados’ de sua gestão é justamente a relação com a Ucrânia”.

Presidente Putin anuncia ofensiva militar em pronunciamento televisionado

 

Ao chegar ao poder, em 1999, Putin se mostrou bem mais do que um burocrata da KGB e passou a operar desde então uma das máquinas de guerra mais poderosas do mundo — atualizada para se tornar também a maior especialista em cibersegurança global — e a sustentar a economia russa em níveis de crescimento constantes e robustos, comparáveis aos da China, embora pouco diversificada e dependente basicamente das indústrias de petróleo e mineração.

Com isso, reconstruiu a autoestima russa, o que em parte explica sua popularidade, que ele parece querer colocar à prova com suas recentes ações.

Em entrevista à BBC News Mundo em dezembro passado, Kadri Liik, analista-chefe do Conselho Europeu de Relações Exteriores especializado na Rússia, disse que, em sua opinião, a questão da Ucrânia é aquela em que as próprias emoções de Putin entram em jogo, então, às vezes, suas posições podem não parecer muito racionais.

Toal, da Universidade Virginia Tech, apontou à BBC News Mundo haver um argumento segundo o qual Putin foi pessoalmente humilhado pelo que aconteceu com a Ucrânia durante seu mandato, quando seus esforços recorrentes para instalar líderes pró-russos em Kiev não renderam os frutos esperados. “O argumento geral é que ele está lutando com esse problema há algum tempo, sente que é um negócio inacabado que faz parte de seu legado e precisa ser corrigido de uma vez por todas.”

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